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Coomaraswamy Fazimento 3

Ananda Coomaraswamy — Arte, Homem e Fabricação (3)


Será evidente que em uma civilização na qual sobrevive um conceito de ordem, o que se crê que é a verdade deve ter uma incidência imediata na atividade, que, de outro modo, seria irracional e carente de significado. E no que concerne à atividade produtiva, visto que é por arte, ou seja, pela arte no artista, como se fazem as coisas, e visto que “a arte é a razão ou o princípio justo da manufatura”, o que nós compreendemos por “arte” será o critério último em toda manufatura “para o bom uso” e a satisfação das necessidades — a menos que nos proponhamos a tolerar uma manufatura para outros fins que o do bom uso, e de coisas das quais não há nenhuma necessidade, mas cuja “necessidade” pode ser induzida com uma publicidade sugestiva.

Por conseguinte, a teoria comum da arte esboçada acima, não nos proporciona meramente a base para a compreensão das obras de arte pertencentes a tempos passados ou a outros povos, mas um critério da verdade e do valor na civilização que está emergindo, um critério que pode ser aplicado a nossas próprias produções e métodos de produção. Não é, como a estética contemporânea, um falar in der luftherein, mas que enuncia princípios racionais que podem ser aplicados a todos os fins práticos. A manufatura pode ser considerada do ponto de vista do cliente ou bem do ponto de vista do fazedor; embora, de fato, se considere quase exclusivamente do ponto de vista do vendedor, que, como tal, nem a faz nem a usa, e cujo único “negócio” é comprar trabalho barato e vender produtos caros. Parece ser axiomático que a manufatura deve ser para o bem do cliente, e que o cliente não pode comprar seus bens ao preço da degradação do fazedor. Mas se não se cumprem nenhuma destas condições como pode a manufatura ser desculpada ou justificada em uma comunidade racional ou moral?

Talvez seja melhor considerar primeiro ao fazedor, visto que a natureza do produto depende de seu procedimento, enquanto que o cliente só pode usar o que o fazedor produz. Se “a indústria sem arte é brutalidade”, então o trabalhador industrial assalariado é um “bruto”. Como é isto assim? Ele é assim em virtude do fato de que as classes trabalhadoras, sob as condições existentes de produção para o proveito, “não têm nada que oferecer nem que vender exceto sua força e sua habilidade física” — o que é a definição de uma prostituta, ou de alguém “mantido”. Não se deve surpreender de que o corpo do trabalhador, “tendo perdido a seus próprios olhos quase toda sua importância como um instrumento de produção qualificada, lhe interesse quase exclusivamente como uma fonte de prazer e mal-estar”. De fato, em uma fábrica ou outra instituição para a produção em quantidade, o percentual de trabalhadores qualificados pode cair tão baixo quanto dois por cento do total.

Especifiquei acima o “trabalhador assalariado”, entendendo o homem alugado e explorado, devido a que, como se assinalou muitas vezes, o trabalhador normal não é um mercador de si mesmo nem de seu produto, mas apenas vende este último a fim de obter os meios de continuar com seu trabalho, trabalho que ama e do qual é responsável ante si mesmo e ante seu próximo. A divisão entre o artista e o artesão, entre as belas artes e as artes aplicadas, corresponde exatamente à oposição atual entre a educação liberal e a educação técnica, e entre o ensino e a habilidade manual, como se estas fossem incompatíveis. De fato, nas democracias industrializadas, sejam elas totalitárias como na Rússia ou capitalistas como na América, se desenvolveu uma nova distinção de classe que divide àqueles que podem permitir-se ser “artistas” daqueles que só podem viver por uma indústria sem arte, e de quem se espera que gozem das “melhores coisas da vida” (se é que podem fazê-lo) apenas em suas horas “livres”; ou para falar mais exatamente, em suas horas de “ócio”, visto que “livre” não significa propriamente nada senão liberdade para fazer o próprio trabalho de um sem obstáculos nem obrigações alheias. Aqui e agora, na América, o homem que ganha a vida fazendo o que quer fazer mais do que nenhuma outra coisa no mundo, ou seja, o homem livre, é uma exceção.

Este sistema de produção está em completo acordo com a filosofia contemporânea prevalecente, uma filosofia que exclui os “valores”, ou seja, a filosofia que nega a possibilidade de fazer escolhas racionais no campo da perseguição e evitação das coisas desejáveis ou indesejáveis. Esta negação do livre arbítrio se reflete na negação de toda responsabilidade e capacidade de escolha aos trabalhadores, que só são livres para votar, mas que devem fazer o que exige deles uma suposta necessidade econômica, que, na realidade, é apenas a ambição que tem o vendedor de possuir um iate. Isto é o que nós entendemos, ao dizer que o sistema industrial (se o contrastarmos com uma ordem de sociedade vocacional) reduz o produtor a um nível de subsistência subumano. Mas o que entendemos exatamente por subumano ou animal? Não um menosprezo dos animais como tais, mas o reconhecimento de uma diferença entre animais e homens-animais, por uma parte, e homens, por outra; os primeiros são movidos por “a fome e a sede”, os segundos reconhecem também “os valores imateriais” e atuam de acordo; o animal “se comporta”, o homem faz escolhas racionais. Esta distinção é negada, na teoria, por uma filosofia “mecanicista”, e na prática, no mercado de trabalho, onde as mãos são alugadas para fazer apenas alguns movimentos, muitas vezes sob a pressão exercida por “especialistas eficientes”, o mesmo que se emprega um cavalo para puxar uma carroça e que assim ganhe sua manutenção; e o mesmo que o cavalo, o homem alugado e explorado não é no sentido próprio da palavra um agente, mas apenas um reagente passivo a estímulos externos.

Assim, como assinalava tantas vezes Eric Gill, “uma civilização que nega o livre arbítrio produz natural e inevitavelmente escravos, não artistas; e em uma tal civilização poucos homens são artistas, e esses poucos são simplesmente cachorros de colo dos ricos e se monta um grande alvoroço em torno deles… O sistema de fábrica… é o sistema saído naturalmente de uma filosofia que nega o livre arbítrio, e que, como uma consequência natural, degradou o homem ao nível de uma mera ferramenta.” Tudo isto é o que Ruskin entendia quando disse que em nossas fábricas se faz de tudo, exceto homens.

Voltemos ao cliente. Onde ainda era verdadeiro que o artista não é um tipo especial de homem, mas que cada homem é um tipo especial de artista —e uma parte necessária da definição de um “artista” é que ele está naturalmente inclinado pela justiça a fazer seu trabalho tão perfeito quanto possível— todos os bens e efeitos do cliente eram realmente obras de arte, “feitos por arte” —et aptus et pulcher, como o estilo escrito de Santo Agostinho. Gautier sustentava que “tudo o que é útil é feio, pois é a expressão de alguma necessidade, e as necessidades dos homens são inóbeis e repugnantes”; mas Sócrates declarava, “a mesma casa que ao mesmo tempo é bela e útil, é uma lição na arte de construir casas como devem ser”. Mas Sócrates pertencia à escola daqueles que sustentavam que a ciência da sociedade, ou seja, nossa “sociologia”, é algo mais que uma questão de registro estatístico; é a ciência do conhecimento do que deve ser e de como fazê-lo ser. Mas agora, como sempre, o cliente vive no mesmo mundo com o produtor, seja que ele mesmo produza ou não; e sob as condições presentes, o cliente como tal só pode obter para seu uso o que a fábrica produz. Nem mesmo os milionários podem adquirir bens de “qualidade de museu”, exceto como “antiguidades”. Em geral, o cliente não pode permitir-se adquirir a obra de “artistas” tais como os que há, nem estes produzem as “utilidades” que o cliente requer. Muitas vezes, certamente, o “artista” mesmo proclama que seu “belo” trabalho é inútil ao mesmo tempo que sem significado. Em um país tão pobre como este, o homem que pode permitir-se comprar bens sob medida, ou feitos à mão é a exceção.

Qualitativamente, o modelo de vida do cliente o determina o vendedor, e ao cliente mal ocorre questionar uma situação à qual ele chegou a se acostumar. Como o trabalhador, o cliente está realmente incapacitado para fazer escolhas racionais; sua vida não é sua; caveat emptor perdeu seu significado para nós, o cliente já não sabe o que necessita, mas apenas o que pode persuadi-lo a desejar —e isso é, é claro, o que o vendedor tem em seu armazém. A vendabilidade, que é uma questão de preço muito mais que de valor, é o critério da produção, e a arte da persuasão, literalmente a arte de “enjoar”, foi desenvolvida até tal ponto que os homens podem ser persuadidos, por uma publicidade habilidosa, a desejar qualquer bugiganga, seja que a necessitem ou não. O cliente está tão padronizado como o produto, e o “produto padronizado de nossas fábricas e fábricas é uma desgraça”. E isto não é meramente uma condição localizada; as bugigangas industriais podem ser produzidas facilmente nas fábricas em quantidades muito maiores das que podem ser vendidas localmente, de maneira que a persuasão —racionalizada e justificada pela pretensão ou a convicção de que a criação de necessidades novas é um processo civilizador— há de ser exportada a fim de capturar mercados estrangeiros, que são inundados, por sua vez, com os produtos padronizados do industrialismo, produtos para os quais, aqueles que uma vez trabalhavam como artistas vocacionais em seu próprio ambiente, servem agora como produtores de matérias primas. Tudo isto é possível, é claro, devido a que os estrangeiros, cujas próprias tradições foram arrasadas pelos tipos de educação que seus conquistadores lhes impuseram, podem ser persuadidos, tão rapidamente como os nativos americanos, de que o modelo de vida quantitativo será para seu bem; e ficam muito poucos, ou pelo menos muito poucos no poder, que possam dizer com o pasha de Marraqueche que “nós não desejamos o incrível modo de vida americano”, ou que defendam com Gandhi o modelo de uma ordem social composta de indivíduos livres, onde não haja nenhuma necessidade de instituições que concentrem o poder nas mãos de oligarquias ou desse tipo de controle tecnocrático da natureza que realmente não significa nada senão o controle da maioria por uma minoria possuidora dos meios mais eficientes de coerção pela violência.

Que todas estas coisas são as causas das guerras, e as guerras as causas de que os ricos se façam ainda mais ricos e os pobres ainda mais pobres, está fora de questão aqui; a questão aqui é que os homens escrupulosos, que ainda podem distinguir entre o mérito e o preço, entre o valor e o custo deveriam perguntar a si mesmos por que a Índia ou a China devem “ser ajudadas na senda que conduz à degradação do trabalho, à escravização da pessoa humana, à erosão do solo e à bomba atômica”? Cito esta pergunta como a propôs efetivamente um erudito cristão inglês, a saber, Walter Shewring. Nós sabemos a resposta, resposta que, nas palavras de um cavalheiro inglês, Sir George Watt, de cujo cristianismo pode-se duvidar, é a seguinte, que “por muito… que os indivíduos sofram, deve dar-se curso livre ao progresso em linha com a empresa da civilização industrial”. Nesse “deve”, nós reconhecemos novamente o fatalismo contemporâneo, que nega ao homem moderno a liberdade de tomar decisões racionais ou morais por si mesmo ou em relação a seu próximo, e como resultado do qual o homem democrático moderno está contente de viver em toda a miséria que o rodeia.

Assim, é evidente que a teoria da beleza e o conceito de arte que os homens aceitam, são muito mais que matérias de interesse acadêmico para serem consideradas apenas “no tempo livre”; são matérias de significação e de relevância literalmente vitais para a avaliação exata da nova civilização. Há implícito muito mais que uma casualidade no fato de que uma interpretação estética (sentimental) da arte, que inverte o conceito antigo da arte em tanto que esse tipo de conhecimento racional que tem a ver com a feitura das coisas (ars circum factibilia), tenha se tornado, em apenas os duzentos últimos anos passados, tão universalmente aceita que muito poucos são conscientes de que alguma outra teoria tenha sido sustentada alguma vez. O que implica isto não é uma mera questão de mal-interpretação das artes antigas, não se trata tampouco da falácia patética de atribuir aos “primitivos” e outros nosso próprio esteticismo, embora isso não seja de modo algum um exemplo desprezível das confusões atuais. Mais que tudo isso, a interpretação estética é o único recurso apropriado por cujo meio o homem estético pode justificar seu tratamento de si mesmo como um mero animal “de comportamentos”, ou cegar a si mesmo à miséria de seu entorno, que considera com tanto orgulho.

Segue que para sua re-educação, ou “renovação no conhecimento”, estas duas coisas, a saber, o ensino vocal da história da arte em escolas e faculdades e o ensino silencioso dos museus (os lares das Musas, filhas da Memória), são de uma importância muito mais séria do que nós teríamos suposto. Da primeira, poderia se aprender que até muito recentemente “arte” tinha significado algo mais que uma forma acentuada da sensibilidade nervosa que compartilhamos com os demais animais, desde a ameba em diante; e da segunda, que o divórcio entre a beleza e a utilidade e entre a arte e a indústria implica um sacrifício humano desnecessário e só pode ser explicado nos termos do sistema de produção atual para o proveito, condicionado pela censura todo-poderosa do publicitário. E por cima de tudo, esta é a lição silenciosa da história, a saber, que houve tempos e lugares nos quais a manufatura podia prover às necessidades da alma e do corpo simultaneamente. Que isto não é assim agora, que há razões pelas quais isto já não é assim, e que isto poderia ser assim e será assim novamente; e que assim será quando se tenha recobrado a liberdade do Homem Comum, o Homem nestes homens.